domingo, 16 de agosto de 2009

Sonho Número 3.247 Sobre o Mesmo Tema

Ouviu o piano tocar as mesmas notas uma atrás da outra, enquanto seu coração palpitava cada vez mais apressedamente. A sinfonia de copos e conversas pareciam tambores invocando sua ansiedade. Caminhou por entre as mesas à procura dela. Olhou nos rostos de qualquer garota que se parecesse com ela. Sentiu-se estúpido por pensar que nenhuma delas era ela e que nem poderiam ao menos se parecer com ela. Sentiu-se bobo. Sentou na mesa e esperou por ela. Sentiu-se um completo idiota. O piano martelando aquelas malditas notas em sua cabeça. Lembranças e desejos se misturaram. Quis pedir ao pianista que não tocasse mais aquela música e, quando se virou para o palco, lá estava ela. Bem no centro do tablado, comseus contornos angelicais de sempre e uma ingenuidade nos olhos que ela nunca teve. O martelar e os tambores tornaram-se silêncio, apesar de sentir-se como se estivesse no meio de uma tempestade. Levantou-se e foi até ela. Queria abraçá-la e beijá-la ali mesmo, naquele instante, sem pensar em nada ou em como faria isso. Mas como sempre, travou ao subir no palco, viu as palavras de sua cabeça caírem do teto e se espatifarem no chão. Então, ela se foi. Não se lembra exatamente como, mas sabia que ela não estava mais ali. Lembrou-se de todos os sorrisos que ela nunca havia dado para ele, de todas as promessas que ela nunca fez, de todos os olhares que ela nunca dirigiu a ele. Sentiu-se mais uma vez estranho a si mesmo. Percebeu que as mesas do bar agora eram mesas de escritório, alinhadas de forma simetrica e agonizante. Ouviu o chão se abrir e seu grito lhe chamar enquanto caía. Acordou. O tique-taque madrugador do relógio tentou confortá-lo, não a tempo de olhar de relance o porta-retratos do par feliz em cima da cômoda. Pensou em chorar, mas preferiu voltar a dormir.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Epílogo

Uma das mentes mais poderosas do universo foi de propridade de um cara que não sabia nem se virar direito.
Era inteligente? Fantástico?
Com certeza!
Era um escritor com poderes além da Física de transformar todas as histórias que sonhava em relidade?
Isso mesmo.
Mas ele era totalmente incapaz de pagar uma conta no banco ou mesmo de fazer um Miojo descente. Ele também era, por causa disso, um sujeito de auto-estima muito baixa e sentia-se miserável o tempo todo.
Então, um dia, seres fantásticos e monstruosos ameaçavam invadir nosso mundo para destruir nossas vidas reais imprestáveis e sem sentido. Tiveram então a idéia de pedir ajuda ao homem que escrevia sonhos e os fazia acontecer e o intimaram a escrever algo que salvasse todo mundo e o colocaram numa cabana isolada de todo mundo, para que ele pudesse então escrever palavras que salvariam a humanidade. Disseram-lhe, sem cerimônia: "Escreva!"
Seu nome era Percival Batista, o que era um nome interessante para um artista de talento tão significativo na vida real de pessoas reais, exatamente por ser um nome bem comum e nada comercial. Foi incrível só o fato dos marqueteiros de plantão não terem mudado seu nome para um nome sonoricamente mais aceitável (provavelmente algum nome de língua inglesa).
Percival tentou escrever, mas sentiu-se tão sozinho e miserável, largado numa cabana no meio do nada, que não conseguiu escrever. Despois de ficar deprimido e melancólico, assisitu todas as séries e filmes que pode, ouviu todas as músicas que queria e tomou todo o café que conseguiu, mas não escreveu o livro que impediria o fim do mundo. Invés disso, escreveu uma história fantástica que havia sonhado na noite anterior sobre um garoto numa caixa de papelão em busca de si mesmo e que encontrava pelo caminho, um gato falante, um pinguim de geladeira e uma "luz sem nome que emana inspiração", não necessariamente nessa ordem. Sua história cheia de heroísmo e glória épica, misturando realidade e ficção, melancolia e fantasia, deixou todos maravilhados e extesiados. Até os seres mosntruosos que queriam destruir nosso mundo ficaram muito emocionados com a história e alguns até choraram. Muitos disseram que aquele foi um momento de grande revelação e alguns aproveitaram isso para criarem vários cultos, seitas e religiões inspiradas na história (a maior dela era a Ingreja da Vinda do Pinguim de Geladeira Sagrado). Alguns monstros até se aproveitaram disso para fazer fortunas e viver de vez em nosso mundo, que diziam ser bem mais interessante que o mundo de fntasia de onde vinham.
E todos viveram felizes para sempre.
Havia um motivo para contar essa história - que é um plágio de outra história - mas, definitivamente, fugiu da mente deste autor.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

José Cândido

Zé Cândido era um nada. E sabia disso.
Tinha certeza que sua vida era imprestável e sua existência era ridícula e insignificante. Sempre foi assim. Odiava as outras crianças, mas depois tentou fazer parte delas. Odiava seu pai, mas depois tentou ajudá-lo. Odiava seus irmãos, que tiveram um destino bem melhor que o dele e, quando foram visitá-lo no lugar onde os loucos ficavam e disseram que estavam arrependidos de teram colaborado de alguma forma pela vida miserável que ele viveu, ele os odiou mais ainda, mas os perdoou depois.
Odiava a sua vida fudida.
Odiava aquilo que lhe aconteceu em relação aos sonhos. Odiava estar louco. Chegou até a achar que seus sonhos o ajudariam a ter uma vida melhor. Transformava esses sonhos em histórias e as escrevia em velhos cadernos inúteis. Mas ninguém nunca publicou nenhuma delas.
No começo, achava que ninguém queria saber de suas histórias porque elas eram ruins. Pensou que talvez fosse por causa do excesso de sexo e violência, ou porque elas não eram muito originais, pareciam plágios ou frankensteins de outras histórias. Chegou a pensar que era porque já havia existido um escritor chamado José Cândido. O Mundo não iria querer outro. Chegou a pensar que o mundo não merecia suas histórias e finalmente, teve certeza que elas eram ruins mesmo.
Seu sonho de ser escritor desmoronou.
Isso foi depois que Zé Cândido começou a enlouquecer, é claro. Isso também foi depois de Íris foder com o coração de manteiga dele e de Marta tentar ajudá-lo em vão.
Ele até hoje não conseguiu entender nem metade de toda aquela confusão que disseram que ele estava envolvido. Os assassinatos, os surtos de alguns malucos, nada. Mas ele não ligava. Já havia saído da casa de doidos, estava melhor agora.
Sua vida estava melhor agora.
Continuava medíocre, mas ele não ligava mais.
Tinha conseguido um novo emprego de salário mínimo e estava tentando ter uma vida normal, trabalhando, vendo novelas e cuidando se seus pinguins patinadores. Já tinha se fudido demais por causa do mundo doido e sujo no qual tinha vivido. Não se preocupava mais com aquelas pessoas idiotas, nem com aquele país idiota. Tinha aceitado que também era um idiota e assim por diante.
E assim por diante.
Isso até eu mudar toda a história dele, é claro.

José Cândido é um personagem que eu criei pra escrever um livro.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Caleidoscópio

Atrás dela eu vou
e pela porta me atrevo a entrar.
Oh! A sala de espelhos!
Três paredes,
em triângulo a circular.
E a luz do teto no piso colorido
reflete em cores nos espelhos, que...
Oh! Começam e começam a girar!
Um caleidoscópio começa a se formar
e tão lindas e inebriantes cores me enchem o olhar!
Mas espere!
Ouço música, ouço sussuros!
Lá, entre cores, ouço fadas
em seus cabelos vermelhos elas cantam, sussurram!
"É seu aniversário, comecemos a contar..."
Oh! Quantos dias estão a contar?
A música e os sussurros, as cores
O caleidoscópio a girar...
Não consigo contar!
Quantos dias ainda?
Talvez tudo que me resta é acordar...
Girando, psicodélico, tão colorido...
Espere! Onde está a Casa Feliz?
Onde está Cristine? Girar e Girar...
Cores que sussurram e eu tenho que acordar
Ali! Oh, lá está o homem de cartola
Com calças de bolinhas!
Venha cá Flip! Deixe-me ler seu chapéu
Acorde! Mas, espere...

Acordei. Olhei para o teto, para a tv. Passa da meia-noite já. Dormindo na sala. Desligar a tv e ir pra cama. Preciso dormir. Tente não pensar, não desanimar, só porque hoje é... Espere! Que canal é esse? Tem um enorme rosto ali.
- Isto ainda é um sonho, você sabe. - disse a tv para mim. O rosto na tv.
- Falou comigo?
- É só o primeiro, você sabe. É um dia diferente dos outros. Muitos sonhos. Você sabe.
O rosto na tv sorriu.
- Venha. Chegue mais perto.
Levanto do sofá, não sei como. Me aproximo. Cores, sussurros, música.
- Já viu um caleidoscópio? - me perguntou o rosto na tv antes de abrir sua enorme boca e me engolir.
Era uma sala bem grande. Parecia uma espécie de museu. tudo colorido e girando. Mas não fiquei tonto. Me concentrei nos quadros nas paredes. Espere! São partes de minha vida! Partes comuns e bem sem-graça. Não. Não. Esse também não. Opa! Esse aqui! Eu não lembro desse...
- Esse quadro é falso! Isso nunca aconteceu! - eu gritei para as cores.
- É a parte que você criou mas não viveu. - disse uma voz colorida e suave, com um sussurro. Uma bela moça com um belo chapéu de 100 anos. Uma princesa.
- Cristine?
- Camille. Esse sonho não é seu. É de Ninguém. - ela disse.
- Temos sonhos parecidos.
- Ele é uma criança. Você deveria ser um adulto.
As cores girando. A parede ficou triangular. Um caleidoscópio. Estou dentro de um...
- Tudo tão confuso. - foi o que eu disse. Acho.
- São só sonhos.
- Não, não aqui. Lá fora... Aqui eu me entendo, eu gosto. Mas lá fora...
- É um outro tipo de caleidoscópio, só isso. - e sumiu.
Eu procurei pela princesa, mas o caleidoscópio não me deixou encontrar o palácio dela. Porque eu estou sempre procurando por uma princesa? Essas cores... Flutuando. Estou flutuando. Isso aqui não é daqui. Esse sonho não é daqui. Preciso acordar. Preciso acordar! Já dormi demais. Não posso mais... Uma janela no teto. Talvez se eu sair por ali... Pronto! Espere. Aqui é o céu. Não... Caindo, caindo. Droga de sonho maluco! Nunca vou conseguir escrever isso! Mais uma pra sua biblioteca Morpheus! Você vai encher prateleiras e mais prateleiras de sonhos que nunca viraram livro. Sonhos de alguém que nunca foi o que é. Por falar em prateleiras, onde estão aquelas prateleiras de quando Alice caía? Aqui só tem o vazio. E a música. E as cores. E os sussurros das fadas ruivas. Peraí! O céu não estava colorido!

Acordou. Saltou da cama num pulo. Adorava esses sonhos tanto quanto os detestava. Sentiu-se mal como sempre se sentia. Era a realidade. Sempre se sentia mal na realidade. Não quis levantar. Era sua folga. Seu aniversário. Não precisava levantar, nem trabalhar num emprego que só servia para sobreviver. Não teria que enfrentar-se no espelho e ver que estava ficando velho e empacado. Não saía do lugar. Também não teria que cumprimentar ninguém e nem sair de casa. Cada vez gostava menos de pessoas. Mas é claro que ela iria ligar. Não tinha certeza se isso o fazia sentir-se feliz ou não. O pequeno. Esse sim. Sentia como se tivesse a idade dele. Não pode! É mais velho! Tem responsabilidades e uma vida para viver. O pequeno precisa que ele aja como alguém mais velho do que ele é por dentro e mais novo do que ele é por fora. Ok. Decidiu levantar-se. Olhou no relógio do celular. Viu que alguma cosia estava errada. A data, o horário não estavam certos. Olhou para o lado para ver se seu irmão estava dormindo. Estava. Bufava ar quente contra o teto e a fumaça que saia por suas narinas de bagre pareciam amareladas e avermelhadas, meio coloridas, e estavam manchando o teto branco. Não lembrava se seu irmão realmente parecia um bagre.
- Acho que a cabeça dele era humana. - pensou.
Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Não conseguia se virar. O teto estava ficando colorido. Muitas cores. Olhou de relance para o espelho na parede oposta a ele. Fez isso com muita dificuldade e viu. Tinha virado uma barata. Uma enorme barata parasita de apartamento. Sentiu calafrios. O quarto começou a rodar... Parecia um caleidoscópio. Havia uma música estranha no ar. Parecia velha e dançante. Um mulher cantava. Pareciam sussurros. Os calafrios aumentaram e uma sensação de morte tomou sua mente.

Acordei. Peguei o caderno e anotei os sonhos. "Não dessa vez, Morpheus", pensei. "Essa é minha". Tirei os fones dos ouvidos.
Vou desligar tudo e ir dormir.Afinal, já passa das 2 da manhã e o pior dia do ano já começou.
Que sonhos me aguardam na cama? "O que preparou pra mim hoje, Morpheus?"
Boa noite.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Dossiê Arcoverde

Os planos estavam andando de acordo com o combinado. Miguel resolveu repassá-los mais uma vez para ter certeza de que nada sairia errado. Raquel seguraria o Prof. Delano no La Conchita até as dez, enquanto ele e o Sr. Osvaldo invadiriam o apartamento do professor maluco. O dossiê seria guardado – para o bem de toda a nação, vale lembrar – e todos ficariam felizes. Era tudo que Miguel mais queria, que todos ficassem felizes. E ele seria um herói nacional, como os grandes verdadeiros heróis nacionais foram. Pensou em seu pai finalmente lhe dando os parabéns por algo tão grandioso, assim como em Raquel, que não hesitaria nunca mais em casar-se com ele. Ele finalmente estaria a altura de nomes como o Marechal Deodoro ou o Capitão Espinosa, grande herói de seu pai, que nunca lhe perdoou por não ter seguido carreira militar quando teve a chance.
Antes de seguir para o encontro fatídico, resolveu passar na padaria para ter seu último encontro com seu agora amigo escritor, antes que ele seguisse em viagem de volta para seu sítio no interior. Foi pelo caminho pensando em tudo aquilo que havia acontecido naqueles dias. Ele e Raquel haviam conhecido o professor, Delano, um argentino um tanto quanto excêntrico, que nunca revelava em que universidade lecionava e dizia ser detentor de um precioso dossiê que poderia acabar com o governo brasileiro e mudar toda a história da América Latina. Lembrou que primeiramente não acreditou no professor esquisito, não fosse convencido pelas experiências cibernéticas que o professor fazia em sua casa e que lhe puseram em contato com nada mais do que William Shakespeare – que foi surpreendido num ato imprudente com uma moça, para embaraço de Miguel e Raquel – isso sem falar de sua partida de sinuca com Vasco da Gama e os galanteios que recebeu da Marquesa de Santos (que confessou adorar as novelas de Manoel Carlos). Aquilo realmente mostrou a Miguel o poder do Prof. Delano e do que ele era capaz de fazer. Um dossiê confeccionado para executar um golpe de estado pareceu então coisa pequena, não fosse a importância de tal.
Chegou na padaria e logo percebeu o senhor barrigudo no balcão, com sua cerveja preta já despejada no copo.
- Olá. – disse-lhe o velho.
- Olá. Como vai o senhor? Pronto para viajar já? – perguntou Miguel, tentando ser íntimo.
- Claro. Estava só à sua espera. Aqui está. – e lhe empurrou um embrulho de papel pardo. Tinha o tamanho de uma caixa de camisas.
- O senhor... tem certeza? – fraquejou o rapaz.
- Ora, se tenho! Eu não preciso mais disso. E você logo não precisará mais trabalhar naquele hospital.
- Uau! – foi tudo que Miguel conseguiu dizer. Estava farto do setor administrativo do hospital onde trabalhava e aquilo em suas mãos realmente parecia ser o passaporte para um futuro melhor.
- Espero que possa guardar nosso segredo depois disso. – inquiriu o velho.
- Claro, claro! Mas, me diga uma coisa, Sr. Jorge. – começou o rapaz.
- Xiu! Não diga meu nome aqui! – e mandou mais um gole de cerveja goela abaixo.
- Desculpe-me. Mas, então... Ainda não me conformo de não ter sido o senhor a escrever “Capitães da areia” e “O gato Malhado e a andorinha Sinhá”. Afinal o senhor nunca disse o contrário...
- Já disse, um foi um amigo meu que escreveu e me deixou o manuscrito quando morreu. Outro foi um anônimo que deixou em minha porta. Agora preciso ir! – disse o velho Jorge Amado, antes de entornar o último gole de cerveja preta. – Você paga! É o mínimo que pode fazer. – e saiu pela porta da padaria para nunca mais ser visto.
Miguel pensou sobre aquilo enquanto abria o pacote. Tinha encontrado Jorge Amado por acaso, no hospital, após o velho ter uma crise cardíaca por causa da bebida. Ainda não lhe entrava na cabeça o apreço de Jorge Amado por um bom copo de cerveja preta! Assim como o argumento do escritor, dado como morto já havia sete anos, de que teria feito isso para isolar-se num sítio longe do que ele chamava de “ratos da Academia”, junto de sua bela Zélia, que usou do mesmo artifício para não ser mais importunada e o esperava no sítio. Foi muito difícil para Miguel aceitar todo aquele choro de artistas na mídia popular como sendo apenas uma encenação. Mais ainda quando o escritor começou a dizer que não tinha escrito dois grandes sucessos literários que tivera, o “Capitães” e o livreto infantil. Pensou que era delírio do velho porque estava bêbado, mas tinha acabado de ter comprovação dele ainda sóbrio. Enquanto desembrulha o pacote, tentou não sorrir para si mesmo quando pensou em pedir o novo livro que Jorge Amado estava escrevendo e nunca publicaria em troca de não revelar a ninguém que o escritor estava vivo e seu paradeiro. Com aquele livro finalmente se tornaria um escritor e sairia do hospital! Abriu a caixa e lá estava ele: um calhamaço de folhas sufite datilografadas.
Pegou o pacote e seguiu para o Arcoverde, o prédio onde morava o Prof. Delano e onde o porteiro, o Sr. Osvaldo, lhe esperava para a grande empreitada. Logo que chegou, o porteiro veio falar com ele, dizendo que Delano já havia saído. Ambos subiram para o quarto andar e seguiram para o apartamento 402, onde uma chave mestra deu cabo de abrir a porta. O Sr. Osvaldo ficou de prontidão na porta, enquanto Miguel caminhou até a cozinha, pois sabia muito bem que o professor guardava o dossiê secreto no armário, atrás das travessas de plástico. “Lugar muito melhor do que um cofre”, ele costumava dizer. Logo Miguel estava com a pasta esverdeada em suas mãos. Quis abrir para saber quais eram os planos podres que Delano guardava ali, mas deixaria para depois. Certo de sua vitória, pôs o dossiê por cima da caixa com os manuscritos do novo livro de Jorge Amado, que agora eram seus, em cima da mesinha da cozinha. Foi até a sala e serviu-se de uma dose de vodca. Queria saborear um pouco mais aquele momento. Sentou-se na cadeira, pernas cruzadas, cigarro numa mão (não se preocupou com o cheiro que a fumaça deixaria, já que Delano também fumava) e copo de vodca na outra e pôs-se e, devaneios. Pensou em toda a glória que o aguardava, entregando os planos secretos para a derrubada do governo às autoridades e publicando seu primeiro e genial livro. Um estopim para sua mente criativa que traria outros livros à tona para escrever e ninguém notaria que não foi ele o autor daquela nova obra. Afinal, o próprio escritor original já havia se apoderado dos manuscritos de um amigo morto sem que soubessem.
Acordou de seus sonhos a olhos abertos quando o porteiro chamou por ele para saber se já havia tido sucesso em pegar o dossiê. Porém, o fez subitamente, derramando a vodca por todo o dossiê e pela caixa com os manuscritos. Deve ter se esquecido de que tinha um cigarro em mãos, pois aproximou-o da mesa e rapidamente tudo que estava coberto pela bebida pegou fogo. Sem saber o que fazer, Miguel agarrou uma ponta da caixa e jogou ela e o dossiê na pia, acertando a cortina que havia na janela acima dela, espalhando ainda mais o fogo. Quando deu por si, tudo que havia para fazer era sair dali o mais rápido possível, pois o fogo estava dominando a cozinha do professor argentino.
- Ligue para os bombeiros! – gritou para o porteiro quando passou por ele na porta do apartamento.
Fez questão de sair dali o mais rápido possível e entrou no primeiro ônibus que viu. E agora? Estava tudo perdido! Seu sonho de ser escritor, ser herói para seu pai, fazer com que Raquel se orgulhasse e casasse com ele. Seus sonhos estavam em chamas. “Raquel”, pensou. Sem perceber, havia pego o ônibus em direção ao La Conchita, o boteco onde ela se encontrava com o professor para que ele pegasse o dossiê. Delano tinha uma queda por Raquel e ele havia percebido isso nas visitas que eles fizeram ao cientista. Ela saberia o que fazer. Ela era inteligente, esperta, controlada e não desviava pensamentos em momentos importantes.
Chegou ao bar um tanto quanto pálido e Raquel já o esperava na porta.
- Onde está o professor? – perguntou.
- Ligaram para ele. Parece que seu apartamento pegou fogo. – ela disse. – O que você sabe sobre isso?
- Bem... – disse ele, bastante desajeitado. – Eu consegui destruir o dossiê. Você o segurou aqui tempo suficiente.
- Não foi nada difícil.
Ela acendeu um cigarro. Ele pensava no que fazer. Ela esticou o braço para um taxi parar.
- Preciso ir. – disse Raquel. – Vê se se cuida. Descanse! Nos falamos depois.
- Raquel! – ele chamou enquanto ela entrava no taxi. – Não foi como eu esperava. O livro... Talvez demore um pouco mais para acertar minha vida, sair do hospital. Talvez nosso casamento demore um pouco mais para acontecer.
- Precisamos conversar sobre isso. – disse ela, já fechando a porta. – Talvez eu passe um tempo na Argentina. Beijo.
Fechou a porta e o taxi seguiu caminho, sumindo de vista na primeira curva. Miguel parecia anestesiado. Caminhou para dentro do bar e sentou-se no balcão. Rapidamente o garçom estava lá para atendê-lo.
- Vodca, como sempre, Sr. Miguel?
- Não, hoje não. Acho que não beberei mais vodca. Tem cerveja preta?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Recuperação em Física

Seu quarto não era só um lugadouro pra nanar, era bem mais que mais que isso! Havia algo de istifequeniano ali. Talvez fosse a luz lúgubre que se apertava toda pra passar pelo espacinho entre as cortinas; talvez fosse pela coleção joiciana na cabeceira da cama; ou talvez fossem as cores descoloradas e soturnas, místicas; ou ainda, talvez fosse pela cara assombraziva que ela fazia quando me olhava, formando um conjunto insólito e cinematográfico junto da imagem do quarto. Conjunto cinematográfico de filmes de terror, é claro. Será que aquilo tudo era uma combinação feng-chuiana com a sala ritchicóquiana pela qual passamos antes de chegar até ali? Sei lá. Não sei onde tinha deixado minha cabeça quando ela me convidou para vir até aqui. Talvez ela fosse uma espécie de duende e tivesse pedido aos seus amigos duendezinhos que escondessem minha cabeça de mim, para que ela pudesse me convidar e eu estivesse descabeçado o suficiente para dizer sim. Não que ela fosse feia, pois não era. Era esquisitinha. Não como aquelas meninas da escola que se vestem de roupa preta achando que vestiram trevas mas só vestiram roupas pretas e ficam olhando pra você como se você fosse a pessoa mais chatonilda e sem-gracinha do mundo. Essas eram esquisitofrênicas mas não esquisitas porque, no final de todas as potências, chaves, colchetes, parenteses, divisões e multiplicações (para não falar das somas e subtrações, estranhamente a primeira coisa em que pensam as pessoas quando dizem "vamos somar e subtrair para ver no que dá", mesmo sabendo elas que somas e subtrações são as últimas no processo de resolução de uma equação), enfim, onde eu estava mesmo? Ah, sim. No final de tudo as esquisitas da escola são bem normais. Garotas normais esquisitalóides em seu jeito, mas normais em seu pensamento comum de um ser humano socializado comum. Entende? Toda sociedade socializável tem seus esquisitos. E eles procuram o mesmo que os não-esquisitos, mesmo que aparentemente sejam demonstradores de esquisitice não-comum. São incompatíveis, linuxianos num mundo dominado pelo Windows, mas com os mesmos propósitos. Não era o caso dela. Ela era realmente esquisita, não incompatível. Até porque, mesmo não sendo nem Linux, nem Windows, ela ainda era sociável. Acho. Mas a questão aqui, you know, é que ela não era normal. Talvez os genes delas fossem alieníginas, apesar que ela me parecia bem terráquea. Era uma mezzo extra, mezzo terrestre. Era pequena, mas não menos baixinha que o normal; tinha a pele abrancada e alva, mas sem a vermelhidão dos alvos ou a opacidade mórbida dos defuntos; seu cabelo fazia uma forma suavizada de um cabelo desenhado, liso, castanhos e cortados à altura das orelhas, que eram delicadamente anormais; sua boca era pequena quando quieta, mas enormizada pelos sorrisos coringuésticos que ela dava de vez em quando; seu corpo era magro, franzino e seus seios não eram inolháveis e muito menos indesejáveis; mas os olhos, ah os olhos, esses sim eram a janela da alma esquisita dela. Redondilhados perfeitamente e inquisitivamente vigilantes e embedelhados. Faziam ela parecer uma dessas bonecas de louça as quais gente não ficaria sozinho no quarto com ela. E lá estava eu sozinho com ela no quarto, sei lá porque. Eu disse, dizia e diria que era por causa da Física - ou das minhas notas nessa matéria - mas no fundo de minhalma sabia que não era por isso que eu estava ali. Era sim - depois eu soube - pela minha despercepção de que eu talvez houvesse me esquisitado e começara a gostar dela. Mesmo ela sendo uma terráquealienígina boa de Física (coisa normal entre seres de mundos desmundos, acho eu). Por mais lintchiana que ela fosse e por mais timburtano que aquele quarto - pra não dizer a casa - fosse, foi lá que nossas bocas se abraçaram e nossas líguas apertaram as mãos. Foi o começo de meu processo de esquisitação, descoberto pelos normalizados e pseudo-esquisitofrênicos apenas quando anunciado meu nome entre os que ficaram de recuperação em Física.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Tomás e a Cospiração dos Seis Dragões

Tomás não estranhou estar numa sala cheia de dragões. Ultimamente os dragões eram muito pertinentes em seus sonhos. A sala, bem arrumada, com belos e exclusivos móveis de madeira forte, das árvores dali mesmo, daquelas florestas que os cercavam, disfarçavam bem seus pensamentos iluminados por trás de enormes janelas com beirais azuis e o teto muito acima de sua cabeça , que parecia querer lembrar-lhe de sua postura quanto ao Paraíso. Teve seu devaneio decorativo interrompido quando Andrade, o dragão-mor, lhe requisitou atenção para ouví-lo. Pôde contar seis dragões ao todo: Andrade, Maciel - seu fiel bajulador, Rolim - o sacerdote que adorava bolinar ninfas da terra, assim como seu ajudante Toledo, o valentão Xavier e Peixoto - o bagre.
- Exímios senhores de sabedoria e poder, é chegada a hora! Temos que reclamar o que nos é de direito: o poder aboluto sobre esta terra! - bradou Andrade, soltando fagulhas entre uma palavra e outra.
- É divina a decisão de tomarmos o melhor caminho para nosso reino! - concordou Rolim, em chamas.
- Isso! Divino! - fumaçou Toledo, para se fazer presente.
- Faremos uma derrama e eu mesmo cortarei a cabeça de Barbacena, entregando-a para Andrade, que incitará o povo pelo grito de liberdade e então nossa República dos Dragões estará formada! - esbravejou Xavier.
Tomás sentiu medo, mas ao mesmo tempo percebia um ímpeto de satirizar toda aquela estratégia. Afinal, não seria um aburdo completo uma república governada por dragões? Seria apenas uma monarquia disfarçada. Tentou ouvir o restante do levante.
- Se algo der errado, nosso grande e corajoso "camarada" Peixoto entrará em ação, deixando-se levar pelas autoridades a fim de negociar nossa posição. - completou Andrade, para espanto de Peixoto.
- Eu? Por que eu? - indagou o dragonete.
- És bem vindo em ambos os lados, amigo. Não lhe farão mal. - respondeu Xavier.
- Bem, de qualquer forma, terei sempre o arrancador de dentes... - refletiu, mais aliviado.
Tomás quis rir, mas se deteve apenas a lembrar-se de conter sua vontade de transpor aquele sonho absurdo no papel, para que suas palavras não fossem usadas contra os dragões, caso descobrissem seus planos. Tentou acompanhar os seres míticos em seus brindes a vinho da terra-mãe, mas antes disso viu-se no espelho e espantou-se. Era ele um lagarto, como os daquelas mata,s apesar de usar roupas de dragão. Sua descoberta não passou despercebida pelos anfitriões e logo alguém gritou:
- Espião! Façam-no de comida para vermes!
Era Xavier, já voando para cima dele, com garras e brasas a postos, mas não foi em tempo, pois logo Tomás acordou em seu apertado e decrépito reservado a bordo do enorme barco mercantil. Sentiu o breve cheiro de mar e o forte cheiro de dias e pôs-se a devaneios sobre sua amada Maria, de quem sentiria muita falta em seu exílio. Talvez sonhasse com ela. Ao menos esses sonhos poderia descrevê-los em tinta, sem preocupar-se com as consequências.